USA: Um recorde raro e cruel
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O rerato da ditadura suja e cruel na Argentina
Estela de Carlotto: "Eles não olham nos olhos"
terça-feira, 10 de julho de 2012
Comissões da Verdade
divididas pela Anistia
Colegiados do governo e do Congresso
trabalham sem qualquer colaboração e não se entendem quanto à possibilidade de
processar agentes da ditadura.
Em estado de
suspensão desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitou a possibilidade
de revisão da Lei da Anistia, o debate em torno da revogação da medida que,
em 1979, beneficiou militantes de esquerda e agentes do Estado que cometeram
crimes durante a ditadura militar, alimenta uma querela entre a Comissão
Nacional da Verdade e sua "irmã" no Congresso, a Comissão
Parlamentar Memória, Verdade e Justiça.A animosidade da comissão parlamentar
em relação ao colegiado, criado no âmbito do Executivo para investigar abusos
de direitos humanos cometidos desde 1946, ficou clara durante seminário sobre
a Operação Condor, promovido na semana passada. Diante de uma plateia
composta, em sua maior parte, por parentes de pessoas que sofreram tortura
durante a ditadura militar e estudiosos do período, a deputada Luiza Erundina
(PSB-SP) foi dura na crítica à Comissão Nacional da Verdade.
"Nenhum membro dessa comissão apareceu aqui,
certamente para não validar a ação da comissão parlamentar", desabafou
Erundina, durante o evento.O fim da anistia em países como o Uruguai e a
Argentina, que condenou ex-ditadores pelo sequestro de bebês de presas
políticas desaparecidas como resultado da repressão, é usado como argumento
na comissão parlamentar para pressionar pela revisão da Lei da Anistia no
Brasil. Tramita na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara projeto de
lei que dá nova interpretação à norma, impedindo que o perdão judicial seja
concedido a quem cometeu crime de violação dos direitos humanos, como a
tortura.História descoberta.
A criação da comissão parlamentar foi uma forma
de manter acesa a discussão sobre a Lei da Anistia. O governo preferiu deixar
de lado o debate, e a comissão foi instalada sem a prerrogativa. "A lei
não nos dá poderes judiciais para punir ninguém, não fomos criados com essa
atribuição ou a de rever qualquer legislação", defende a advogada Rosa
Cardoso, integrante da comissão nacional. "Nosso trabalho será trazer a
verdade à tona, recuperar a memória desse período. Os resultados poderão ser
utilizados para muitos fins, inclusive para o debate da revisão", disse
Rosa, que atuou como advogada da presidente Dilma Rousseff durante a ditadura
militar.
A comissão parlamentar também reclama da "falta de
transparência" da comissão nacional, instalada em maio deste ano, sete
meses depois do Congresso aprovar sua criação. "A Comissão da Verdade
fica trancada não sei onde. Ela tem que se abrir, ela existe para mostrar,
não para esconder", pondera a deputada. A pressão por maior divulgação
já se fez sentir na comissão nacional, que anunciou para os próximos dias a
criação de um site em que as atividades do colegiado poderão ser
acompanhadas.
Fonte - Correio Braziliense
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Comissão da Verdade reabre caso do guerrilheiro Berbert, morto aos 24 anos
A Comissão da Verdade vai reabrir o caso do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert, morto aos 24 anos, em janeiro de 1972, na cadeia pública de Natividade, hoje Tocantins. Integrante da comissão, o ministro Gilson Dipp afirmou que as fotografias do corpo de Berbert, localizadas pelo Estado no Arquivo Nacional, revelam a necessidade de nova busca dos restos mortais e uma reavaliação das circunstâncias da morte do guerrilheiro. "Vou propor à comissão nesta segunda-feira que se defina uma equipe de técnicos para verificar o que ocorreu", afirmou.
Na avaliação de Gilson Dipp, as buscas para encontrar os restos mortais de Ruy Carlos foram falhas. "As procuras que foram feitas no passado não tinham o apoio oficial que se tem agora e tecnologia, por isso não avançaram", observou. Ele ressaltou que a Lei de Acesso à Informação possibilitou que documentos como o álbum de fotografias de Ruy Carlos, guardado desde 2005 no Arquivo Nacional, pudessem ser revelados.
O presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Marco Antonio Rodrigues Barbosa, que assessora a Comissão da Verdade, defenderá, na reunião desta segunda-feira, a reabertura conjunta do caso da morte de Ruy Carlos. Ele vai apresentar à família Berbert, que mora em São Paulo, uma proposta para colher amostras de DNA para possível trabalho de busca pelo corpo de Ruy Carlos.
Além de divulgar as primeiras imagens, após a redemocratização, do corpo de um guerrilheiro morto em dependências do Estado,
Na avaliação de Gilson Dipp, as buscas para encontrar os restos mortais de Ruy Carlos foram falhas. "As procuras que foram feitas no passado não tinham o apoio oficial que se tem agora e tecnologia, por isso não avançaram", observou. Ele ressaltou que a Lei de Acesso à Informação possibilitou que documentos como o álbum de fotografias de Ruy Carlos, guardado desde 2005 no Arquivo Nacional, pudessem ser revelados.
O presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Marco Antonio Rodrigues Barbosa, que assessora a Comissão da Verdade, defenderá, na reunião desta segunda-feira, a reabertura conjunta do caso da morte de Ruy Carlos. Ele vai apresentar à família Berbert, que mora em São Paulo, uma proposta para colher amostras de DNA para possível trabalho de busca pelo corpo de Ruy Carlos.
Além de divulgar as primeiras imagens, após a redemocratização, do corpo de um guerrilheiro morto em dependências do Estado,
o jornal também divulgou um relatório secreto da Polícia Federal que põe em xeque versão de que Ruy Carlos cometeu suicídio. No documento, um agente informa que o médico Colemar Rodrigues Cerqueira, que atendia à população de Natividade, se recusou a fazer a autópsia. O tarefa acabou sendo realizada por um farmacêutico local.
Há 20 anos, a família Berbert conseguiu localizar nos arquivos do Dops, de São Paulo, uma ficha com o registro da morte de Ruy Carlos, enterrado com o nome de João Silvino Lopes. O Ministério da Justiça chegou a fazer uma busca no cemitério de Natividade, mas o trabalho foi abortado. Em 1992, a família fez um enterro simbólico de Ruy Carlos na cidade de Jales, interior de São Paulo.
A divulgação de fotos inéditas de Ruy Carlos causou "surpresa" em um companheiro do guerrilheiro no Movimento de Libertação Popular (Molipo). O engenheiro Vinícius Medeiros Caldevilla, o "Manuel" do Molipo, disse que, agora, é preciso saber as circunstâncias da morte de Ruy Carlos. Caldevilla, que atualmente mora em São Paulo, relatou ter convivido com Ruy Carlos em Cuba, onde participaram de treinamento de guerrilha.
Estudante de letras da Universidade de São Paulo, Ruy Carlos foi um dos estudantes presos no Congresso de Ibiúna, organizado em 1968 pela UNE. Após a prisão, ele entrou para a clandestinidade. No começo dos anos 1970, ele esteve em Cuba, onde fez treinamento de guerrilha e se juntou a dissidentes da Ação Libertadora Nacional (ALN) para formar o Molipo, um movimento armado de combate à ditadura também conhecido como Grupo Primavera ou Grupo da Ilha, uma referência à ilha de Cuba.
Fonte - Agência Estado -
Há 20 anos, a família Berbert conseguiu localizar nos arquivos do Dops, de São Paulo, uma ficha com o registro da morte de Ruy Carlos, enterrado com o nome de João Silvino Lopes. O Ministério da Justiça chegou a fazer uma busca no cemitério de Natividade, mas o trabalho foi abortado. Em 1992, a família fez um enterro simbólico de Ruy Carlos na cidade de Jales, interior de São Paulo.
A divulgação de fotos inéditas de Ruy Carlos causou "surpresa" em um companheiro do guerrilheiro no Movimento de Libertação Popular (Molipo). O engenheiro Vinícius Medeiros Caldevilla, o "Manuel" do Molipo, disse que, agora, é preciso saber as circunstâncias da morte de Ruy Carlos. Caldevilla, que atualmente mora em São Paulo, relatou ter convivido com Ruy Carlos em Cuba, onde participaram de treinamento de guerrilha.
Estudante de letras da Universidade de São Paulo, Ruy Carlos foi um dos estudantes presos no Congresso de Ibiúna, organizado em 1968 pela UNE. Após a prisão, ele entrou para a clandestinidade. No começo dos anos 1970, ele esteve em Cuba, onde fez treinamento de guerrilha e se juntou a dissidentes da Ação Libertadora Nacional (ALN) para formar o Molipo, um movimento armado de combate à ditadura também conhecido como Grupo Primavera ou Grupo da Ilha, uma referência à ilha de Cuba.
Fonte - Agência Estado -
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Os Doutores da tortura
Os Matadores
ISTOÉ
revela nomes de militares que exterminaram guerrilheiros em operações secretas,
vivem na clandestinidade e sabem onde estão os corpos
Congresso Nacional e
o regime militar aprovaram a Lei da Anistia em 1979,passando uma borracha nos
crimes praticados por militantes de esquerda e militares que torturaram e
executaram presos políticos durante a ditadura. Mas, embora tenham sido
anistiados, os coronéis do Exército Paulo Malhães, 66 anos, José Brant
Teixeira, 70, e Aldir Santos Maciel, 71, continuam vivendo, ainda hoje, em
plena clandestinidade. A busca pelo anonimato faz parte também da rotina dos
ex-cabos Félix Freire Dias, 55 anos, e José Bonifácio Carvalho, 56.
Esses cinco militares
da reserva não possuem telefones registrados em seus nomes, não fornecem o
endereço sequer a amigos e continuam utilizando os mesmos codinomes de
“doutores”, criados nos centros de informação do regime. Para garantir que
jamais seria reconhecido, o coronel Aldir chegou ao extremo de fazer uma
cirurgia plástica: retirou uma mancha preta do rosto que tornava inconfundível a
figura do implacável “Doutor Silva”, comandante do DOI-Codi de São Paulo
durante o período de 1973 a 1975. O ex-sargento Marival diz que o Doutor Silva
matou, com injeções de droga para sacrificar cavalos, os dirigentes do Comitê
Central do PCB.
As denúncias foram confirmadas por outras testemunhas, como o
corretor Severino Gomes, ex-prefeito de Araçariguama (SP), que ajudou na
localização da chácara onde, segundo Marival, os militantes foram executados.
“Se morreram do lado de á, meus amigos também estão morrendo. Sobre isso, você
não arranca mais nada de mim”, respondeu o coronel Aldir, ao ser perguntado
sobre as tais injeções, depois de ter sido encontrado em sua casa, no Recreio
dos Bandeirantes, no Rio.
Anonimato – “Como você me achou? Tem alguma
coisa errada nisso... não dou meu telefone nem aos melhores amigos. Meu passado
é um segredo de Estado”, disse o coronel Brant ao ser descoberto por ISTOÉ, há
duas semanas, num apartamento na Asa Sul de Brasília, depois de quatro meses de
procura. O anonimato do coronel Malhães é ainda mais difícil de ser violado:
“Meu cliente é invisível. Quem o procura chega ao máximo até mim”, contou o
advogado Manuel Luiz Soares, localizado no bairro do Méier, no Rio, no mês
passado.
Tanto segredo não é à
toa. De acordo com a nova política de não deixar vestígios, estabelecida na
reunião entre o presidente Médici e seu sucessor, Ernesto Geisel, em 1973, a
partir do final daquele ano, os cinco militares participaram, em ocasiões
distintas, das principais operações que resultaram na prisão e execução de
guerrilheiros e militantes de esquerda. Estes homens sabem, mas não revelam, os
locais dos cemitérios clandestinos que as organizações de direitos humanos
tentam encontrar desde o início dos anos 80. Os assassinatos, torturas e
ocultações de cadáveres que teriam sido praticados por eles foram relatados a
ISTOÉ, a partir de janeiro deste ano, pelo ex-sargento Marival Chaves, que de
1967 a 1985 trabalhou nos principais órgãos de repressão do Exército
Brasileiro: no DOI-Codi de São Paulo (até 1976); nos Batalhões de Infantaria de
Selva, de Imperatriz e de Manaus (de 1977 a 1980); e no CIE (de 1981 a 1985).
“Resolvi entregar os nomes porque não levo o crime desses monstros para o
túmulo”, diz. Aos que pensam em vingança, Marival manda um recado: “Deixei o
nome das pessoas que podem atentar contra a minha integridade física em três
lugares diferentes. Um deles é um policial militar que atuava na Casa de
Petrópolis e tem nome de pássaro.”
Emboscada – Nos órgãos onde trabalhou, Marival sempre atuou nos setores de análise e
informações. Sua tarefa consistia no levantamento sobre prisões e mortes de
presos políticos e no cruzamento de dados fornecidos pelos interrogados ou
pelos chamados “cachorros”, militantes que colaboravam com a repressão. Essa
função estratégica permitiu, segundo ele, acompanhar as principais ações do CIE comandadas pelo Doutor César, o coronel reformado José
Brant Teixeira, e pelo Doutor Pablo, o coronel Paulo Malhães. “Ao contrário do
major Sebastião Curió Rodriguez, figura carimbada que teve uma atuação restrita
à Guerrilha do Araguaia, os doutores César e Pablo circulavam por todo o País e
estavam envolvidos nas principais operações de prisão, execução e ocultação de
corpos do CIE. No Araguaia, participaram da Operação Limpeza, escondendo os
cadáveres dos guerrilheiros”, disse Marival.
O ex-agente conta que
os dois coronéis ganharam fama dentro dos órgãos de repressão ao montar uma
emboscada em Medianeira, cidade no sudoeste do Paraná, para atrair, no dia 11
de julho de 1974, um grupo argentino de militantes de esquerda e guerrilheiros.
Comandados pelo ex-sargento Onofre Pinto, os militantes da VPR fugiram do
Chile, acuados pela repressão no país, e passaram pela Argentina antes de
regressarem ao Brasil. Malhães era ligado ao Dina, o serviço de inteligência
chileno, e ganhou o codinome “Pablo” ao participar do gigantesco interrogatório
seguido de torturas no Estádio Nacional de Santiago, logo após o golpe militar
que derrubou o presidente chileno Salvador Allende.
Segundo Marival,
Malhães montou a emboscada no Paraná com a ajuda da Dina e do ex-sargento
Alberi Vieira dos Santos, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, o
responsável por atrair os militantes para uma área de guerrilha fictícia na
zona rural de Medianeira. De acordo com Marival, Alberi havia sido preso em
1965, ao comandar uma tentativa de rebelião contra o regime em Três Passos
(RS), e acabou se tornando informante do CIE infiltrado na VPR. A chácara usada
para a área da falsa guerrilha foi arranjada pelo então capitão Areski de Assis
Pinto Abarca, chefe do serviço de inteligência do Quartel do Exército de Foz do
Iguaçu, que, após a operação, passou a integrar os quadros do CIE. Comandados
pelo ex-sargento Onofre Pinto, o estudante argentino Enrique Ernesto Ruggia, 18
anos, e os guerrilheiros da VPR Daniel José Carvalho, Joel José de Carvalho,
José Lavéchia, Vitor Carlos Ramos e Gilberto Faria Lima, o Zorro, foram
facilmente dominados pelos agentes do CIE ao chegarem na chácara de Medianeira.
“Presos, os irmãos Carvalho, Lavéchia, Vitor, Ruggia e Zorro foram
torturados e executados imediatamente”, conta Marival. Em seu relato, diz que a
vida do ex-sargento Onofre seria poupada porque, após ter sido torturado, ele
teria aceitado colaborar com o Exército. Mas, ao consultar o implacável general
Miltinho Tavares, chefe do CIE, Doutor Pablo recebeu ordem contrária. “Temos de
acabar com ele para dar o exemplo e inibir a possibilidade de novas deserções”,
teria respondido o general. Alberi também teria sido assassinado, como queima
de arquivo, em 1977, no Paraná. Para o secretário Nacional de Direitos Humanos,
Nilmário Miranda, esse episódio pode ter originado o diálogo entre o presidente
Ernesto Giesel, empossado três meses antes da emboscada, e seu segurança, o
tenente-coronel Germano Arnoldi Pedrozzo, revelado pelo jornalista Elio Gaspari
no livro A ditadura derrotada: “Nessa hora tem de agir com muita
inteligência para não ficar vestígio nessa coisa”, afirmou Giesel ao comentar a
prisão e a morte de um grupo de sete pessoas, vindas do Chile e da Argentina,
capturadas no Paraná.
Comandando uma rede
de informantes do CIE, Doutor César e Doutor Pablo, segundo Marival, também
foram responsáveis pelo planejamento e execução de uma megaoperação em inúmeros
pontos do País para liquidar, a partir de 1973, os militantes das várias
tendências da Ação Popular (AP), movimento de esquerda ligado à Igreja
Católica. Segundo o ex-agente, entre os mortos estão Fernando Santa Cruz
Oliveira, Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho e Honestino Monteiro
Guimarães, militantes da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), movimento
dissidente da AP. Irmão do reverendo Jaime Wright, Paulo Stuart foi preso e
morto em São Paulo, em 1973. Os demais militantes também tombaram naquele ano e
em 1974, no Rio. Antes de morrer, Honestino disse a amigos que estava sendo caçado
pelos órgãos de informação do Exército em todo o País.
Operação Limpeza – Narradas por
Marival, as histórias dos doutores
do CIE parecem não ter fim. Em 1974, quando trabalhava em São Paulo, ele diz ter visto o coronel Brant chegar ao DOI-Codi com os dirigentes comunistas José Roman e David Capistrano, presos quando tentavam regressar ao Brasil pela fronteira do Uruguai. Segundo ele, ambos foram transferidos para a Casa de Petrópolis, onde morreram assassinados.
Em 1977, quando servia no Batalhão de Infantaria de Selva, Marival
diz ter deparado novamente com Brant, que se dirigia ao Araguaia
numa operação de controle para evitar a localização dos corpos dos guerrilheiros do PCdoB. Em 1981, a Operação Limpeza foi reforçada
com a transferência de André Pereira Leite Filho, o Doutor Edgar, oficial do DOI-Codi de São Paulo, para o CIE de Brasília. Ele integrava a tropa de choque de Aldir Santos Maciel, que eliminou oito dirigentes do Comitê Central do PCB.
do CIE parecem não ter fim. Em 1974, quando trabalhava em São Paulo, ele diz ter visto o coronel Brant chegar ao DOI-Codi com os dirigentes comunistas José Roman e David Capistrano, presos quando tentavam regressar ao Brasil pela fronteira do Uruguai. Segundo ele, ambos foram transferidos para a Casa de Petrópolis, onde morreram assassinados.
Em 1977, quando servia no Batalhão de Infantaria de Selva, Marival
diz ter deparado novamente com Brant, que se dirigia ao Araguaia
numa operação de controle para evitar a localização dos corpos dos guerrilheiros do PCdoB. Em 1981, a Operação Limpeza foi reforçada
com a transferência de André Pereira Leite Filho, o Doutor Edgar, oficial do DOI-Codi de São Paulo, para o CIE de Brasília. Ele integrava a tropa de choque de Aldir Santos Maciel, que eliminou oito dirigentes do Comitê Central do PCB.
Preocupados com uma
caravana liderada pelo advogado Paulo Fonteles, que se deslocou para o Araguaia
na tentativa de localizar as ossadas de guerrilheiros, os agentes do CIE
montaram uma operação, no início da década de 80, para amedrontar os moradores
que pudessem fornecer informações sobre possíveis cemitérios clandestinos. De
acordo com o relatório Hugo Abreu, encontrado entre a papelada do general
Bandeira, a Operação Limpeza começou em janeiro de 1975 com “as transferências
dos corpos dos guerrilheiros enterrados junto às bases militares do Exército para
diversos outros pontos”. Essa política de ocultação de ossadas se estendeu para
outras regiões próximas onde tombaram guerrilheiros de outras organizações.
Segundo Marival, em 1980 o Doutor Edgar comandou, por exemplo,
uma expedição que retirou de uma fazenda em Rio Verde, em Goiás, as ossadas de Márcio Beck Machado e Maria Augusta Thomas, integrantes do Molipo (Movimento de Libertação Popular), mortos 1973 num confronto com agentes do CIE. De acordo com o fazendeiro Sebastião Cabral,
os corpos enterrados em sua propriedade foram exumados por três homens em 1980, que deixaram para trás pequenos ossos e dentes
perto das covas.
uma expedição que retirou de uma fazenda em Rio Verde, em Goiás, as ossadas de Márcio Beck Machado e Maria Augusta Thomas, integrantes do Molipo (Movimento de Libertação Popular), mortos 1973 num confronto com agentes do CIE. De acordo com o fazendeiro Sebastião Cabral,
os corpos enterrados em sua propriedade foram exumados por três homens em 1980, que deixaram para trás pequenos ossos e dentes
perto das covas.
O cortador de ossos – Ao ser transferido para o CIE de Brasília, em 1981, Marival foi
trabalhar ao lado de um dos homens mais sádicos da ditadura: o cabo Félix
Freire Dias, cujos codinomes eram “Doutor Magro” e “Doutor Magno”. As
confissões do agente do CIE, famoso por sua atuação na Casa de Petrópolis, no
Rio, contribuíram para que Marival pedisse demissão do Exército, sem nenhum rendimento,
no final do governo João Baptista Figueiredo (1979-1985). Durante a rotina de
trabalho no CIE, Félix contou a Marival que cortava os corpos das vítimas em
Petrópolis. Entre elas estava o ex-deputado federal Rubens Paiva, preso no dia
20 de janeiro de 1971, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI-Codi.
“O
Doutor Magno sentia um prazer mórbido em me contar que apostava com outro
carcereiro quantos pedaços ia dar o corpo de determinado prisioneiro executado.
As impressões digitais eram as primeiras partes a serem cortadas ”, conta
Marival. O destino daqueles corpos também foi relatado por Doutor Magno: “Ele
me disse que os pedaços dos corpos, cortados nas juntas, eram colocados em
sacos plásticos e enterrados em lugares diferentes para dificultar a localização.”
Segundo Marival, a frieza e a morbidez de Félix, que começou no DOI-Codi como
carcereiro, lhe valeram uma promoção para a tropa de elite do CIE. Designado
para a Guerrilha do Araguaia, integrou-se à tropa de execução do Doutor
Luquine, codinome do coronel Sebastião Curió Rodriguez. Do mesmo esquadrão
passou a fazer parte ainda o cabo José Bonifácio Carvalho. Conhecido até hoje
como Doutor Alexandre, Carvalho entrou nas fileiras do Exército no Pará e
chegou ao CIE devido ao seu desempenho nos primeiros combates no Araguaia. “Os
dois faziam todo o tipo de trabalho sujo para o Curió, que os presenteou com a
presidência e a vice-presidência da Cooperativa de Garimpeiros de Serra
Pelada.”
De acordo com um
documento obtido por ISTOÉ, em 1º de março de 1985, às vésperas da posse de
José Sarney, Félix deixou o Exército, aos 36 anos. No ano seguinte, em 31 de
abril, assumiu a vice-presidência da cooperativa Mista de Garimpeiros de Serra
Pelada, cujo presidente era o Doutor Alexandre. De 1993 a 1995, Doutor Magno
trabalhou na Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). “O Félix andava com
um uniforme da Polícia Federal e junto com o Doutor Alexandre formava a dupla
de Curió que aterrorizava os garimpeiros em Serra Pelada”, afirma Jane Resende,
presidente da União Nacional dos Garimpeiros.
A história do Doutor
Alexandre também é conhecida pelos garimpeiros. Após o término da Guerrilha,
ele foi escalado por Curió para lotear as terras que deram origem a
Curionópolis, cidade cujo atual prefeito é o próprio Curió. A distribuição de
terras fez parte do projeto do Exército para ocupação do território por agentes
do CIE, a fim evitar a localização dos corpos.
Disposto a esquecer o passado, o coronel Paulo Malhães, que entrou para
o Exército em 1958, também foi para a reserva no dia 1º de dezembro de 1985,
aos 47 anos, no apagar das luzes do regime militar. A mesma preocupação não
teve, porém, seu ex-companheiro José Brant, que até 2001 ocupava um cargo de
assessor especial da atual diretora da Abin, Mariza Diniz. Até hoje ele está na
folha da Agência.
|
João
Goulart tinha origem nas bases sindicais e assustava os militares desde os
tempos em que era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, nos anos 50. Por
isso, só assumiu a Presidência em 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros,
porque aceitou a condição das Forças Armadas: teria seus poderes reduzidos num
parlamentarismo aprovado às pressas pelo Congresso. No Planalto, Jango anunciou
as reformas de base – agrária, fiscal, administrativa, entre outras. Em 1964,
defendendo uma política que para os conservadores cheirava a comunismo, já
estava entalado na garganta dos militares. Em 13 de março, assinou sua
sentença: na tentativa de provar que tinha o apoio popular, discursou na
Central do Brasil, no Rio, para cerca de 200 mil pessoas, ao lado do cunhado esquerdista
Leonel Brizola. “As bandeiras vermelhas pedindo a legalização do PC, as faixas
que exigiam a reforma agrária, etc. foram vistas pela televisão, causando
arrepios nos meios conservadores”, diz o historiador Boris Fausto,
no livro História do Brasil. Foi uma provocação. Os militares o
acusaram de tentar um golpe comunista. Quinze dias depois, em
31 de março, tropas de Minas Gerais e de São Paulo marcharam para depor o presidente. Com a derrota inevitável, em 1º de abril Jango rumou para o exílio no Uruguai. Assumiu o cargo para o moderado marechal Humberto Castelo Branco – o que não impediu a escalada da repressão aos opositores nos primeiros anos. Políticos foram cassados, a União Nacional dos Estudantes entrou na clandestinidade e universidades foram invadidas no dia seguinte ao golpe. Em 1965, estava instaurada a ditadura de fato, quando foi instituída a eleição indireta para a Presidência.
no livro História do Brasil. Foi uma provocação. Os militares o
acusaram de tentar um golpe comunista. Quinze dias depois, em
31 de março, tropas de Minas Gerais e de São Paulo marcharam para depor o presidente. Com a derrota inevitável, em 1º de abril Jango rumou para o exílio no Uruguai. Assumiu o cargo para o moderado marechal Humberto Castelo Branco – o que não impediu a escalada da repressão aos opositores nos primeiros anos. Políticos foram cassados, a União Nacional dos Estudantes entrou na clandestinidade e universidades foram invadidas no dia seguinte ao golpe. Em 1965, estava instaurada a ditadura de fato, quando foi instituída a eleição indireta para a Presidência.
Ines Garçoni
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Entrevista a BBC Brasil
BBC Brasil - A
recusa do Supremo Tribunal Federal de reinterpretar a Lei de Anistia não encerrou
o assunto?
![]() |
| Marlon Weichert |
Marlon Weichert - Não. A decisão da
Corte Interamericana foi emitida depois disso e diz que a anistia não pode
barrar punições por violações graves. Ao reconhecer a jurisdição da Corte, o
Brasil aceitou que houvesse um duplo crivo para a análise de casos de abusos
aos direitos humanos no país. A Lei de Anistia não passou pelo segundo crivo.
BBC Brasil - Mas a
decisão da Corte foi ignorada pelo Brasil...
Weichert - Para nós, do
MP, a decisão foi um divisor de águas e somos um órgão do Estado. Hoje mais de
70 investigações estão em curso para embasar ações criminais contra policiais e
militares - e a maioria foi aberta no último ano.
BBC Brasil - O que
mais está sendo feito?
Weichert - Foram
formados dois grupos de trabalho no qual estão trabalhando de 20 a 30
promotores. Um para ações civis e outro para criminais. O primeiro grupo abriu
oito processos contra torturadores e pessoas que ajudaram a ocultar corpos e há
mais dez investigações em curso. Pedimos que agentes da repressão sejam impedidos
de exercer cargos públicos, tenham seus proventos de aposentadoria cassados e
sejam obrigados a repor aos cofres públicos indenizações pagas a vítimas e
familiares.
O segundo grupo
toca essas 70 investigações criminais. Duas ações já foram requeridas na Justiça
[contra Ustra e o coronel reformado Sebastião Curió]. Por enquanto, os juízes
não têm sido favoráveis, mas esperamos uma mudança.
![]() |
| Marlon Weichert |
BBC Brasil - Há
consenso sobre o tema no Ministério Público?
Weichert - Não. Mas os
promotores agem com independência. Quando começamos a buscar desaparecidos só
eu e uma colega apoiávamos ações criminais. Agora, metade dos promotores parece
ser favorável a essa posição. Além disso, no ano passado a Coordenação dos
Direitos Humanos e a de Direito Criminal do MP estabeleceu que deveríamos
cumprir a decisão da Corte Interamericana.
BBC Brasil - Como
essas investigações se articulam com a Comissão da Verdade?
Weichert - Pode haver
uma sinergia [entre as investigações], embora não haja dependência. Nossas
investigações têm por base pesquisa documental e depoimentos das vítimas.
BBC Brasil - Mas
por que o empenho do Ministério Público nesse momento? Por que os juízes
mudariam de ideia?
Weichert - A Constituição
atribuiu ao MP o dever de defender os direitos humanos e buscar ações penais. É
nossa obrigação abrir esses processos. Hoje há preconceito dos juristas
brasileiros com o direito internacional. Temos uma cultura jurídica de 50 anos
atrás. Mas vários países passaram por essa transição e acabaram aceitando a
autoridade do direito internacional. No Brasil não será diferente. Na pior das
hipóteses em quatro ou cinco anos a decisão da Corte Interamericana acabará
sendo cumprida. E mesmo antes disso teremos decisões favoráveis.
BBC Brasil - O
Brasil começou sua política de reparações pelas indenizações financeiras.
Desembolsou mais de R$ 2 bilhões antes que uma comissão da verdade abrisse o
debate sobre os danos a serem reparados. Além disso, as maiores indenizações
não foram para parentes dos mortos, mas para aqueles forçados a abandonar altos
cargos no período autoritário. Isso tudo não prejudicou a causa das vitimas
frente a opinião pública?
Weichert - Talvez esse
não tenha sido o melhor caminho, mas foi o caminho possível. Não há receita de
bolo para se fazer "justiça de transição". No caso da política de
indenizações, o problema foi o desenho das leis que a definem.
BBC Brasil - O que
esperar da Comissão da Verdade?
Weichert - Ela cumpre um
papel crucial, embora sem punições seu trabalho estaria incompleto. A punição
de uma pessoa dissuade outras de cometerem o mesmo crime e ajuda a prevenir de
forma geral as violações aos direitos humanos. Ainda assim, a comissão pode ter
um grande impacto se ajudar a acabar com os enclaves autoritários nas
instituições brasileiras. Ainda temos estatutos escritos na ditadura regendo a
ação de militares e policiais.
![]() |
| Antony Pereira - King's College |
BBC Brasil - O
brasilianista Anthony Pereira, do King's College, diz que o Judiciário
brasileiro é reticente em aceitar processos contra militares porque muitos
perseguidos políticos passaram pelos tribunais durante o regime. Como vê essa
tese?
Weichert - O Judiciário precisa
fazer uma autocrítica ao seu papel no regime. O fato de o Congresso e a Justiça
continuarem ativos deu uma fachada de legalidade à ditadura e hoje complica a
depuração do que aconteceu no Brasil - porque no imaginário de parte da
sociedade não houve ruptura. Por isso é importante que a Comissão da Verdade
promova uma avaliação do papel das instituições no regime militar. Ela poderia
convidar não só o Judiciário, mas também o MP e outras instituições para tentar
entender por que aderiram a um sistema arbitrário ilegal.Qual a lei que deve ser usada para punir repressores por tortura e morte?
Procuradoria investiga 70 casos contra agentes do regime militar
O Ministério
Público Federal está investigando mais de 70 casos de abusos aos direitos
humanos cometidos pelo regime militar para propor ações criminais contra
agentes da repressão responsáveis por mortes ou desaparecimentos no Brasil.
A informação é do
Procurador da República Marlon Weichert, que conversou com a reportagem durante
um seminário do Transitional Justice Research Group da Universidade de Oxford
para discutir o que vem sendo chamado de "justiça de transição" --as
medidas e iniciativas introduzidas em vários países para lidar com violações
aos direitos humanos de regimes autoritários e guerras civis.
No entendimento de
alguns promotores brasileiros, a Lei de Anistia, que tem garantido impunidade
por abusos contra direitos humanos cometidos durante o regime militar, não pode
ser aplicada em casos de crimes mais graves, como sequestro, tortura e morte
sob custódia.
Eles argumentam que
a decisão da Corte Interamericana dos Direitos Humanos sobre o caso Araguaia
trouxe novos parâmetros para a interpretação da Lei de Anistia, e estão
empenhados em levar militares e policiais ao banco dos réus com base nessa nova
interpretação.
Em 2010, a Corte
exigiu que o Brasil investigasse e punisse os responsáveis pelas mortes no
Araguaia e condenou o uso da Lei de Anistia para impedir a perseguição criminal
de agentes da repressão.
Envolvido nas
buscas de corpos de desaparecidos desde 1999, Weichert é um dos mais ativos
defensores dos direitos das vítimas da repressão dentro do Estado brasileiro.
Instaurou inquéritos que permitiram a retomada da identificação das ossadas do
cemitério de Perus e a reunião de provas sobre a repressão no Araguaia.
Segundo o promotor,
dois grupos de trabalho foram criados no Ministério Público no ano passado para
montar casos contra policiais e militares: um focado em investigações
criminais, outro dedicado a ações civis pedindo que torturadores reembolsem o
Estado pelas indenizações a suas vítimas.
Um precedente
importante nessa área foi criado na semana passada, quando o coronel da reserva
Carlos Alberto Brilhante Ustra foi condenado por uma corte paulista a pagar R$
100 mil a familiares do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e morto em
1971.
Ao contrário do que
acabou ocorrendo em países como Chile e Argentina, juízes brasileiros ainda
resistem muito em aceitar exceções ou reinterpretar a Lei de Anistia.
Antes da decisão da
Corte Interamericana dos Direitos Humanos, o Supremo Tribunal Federal respondeu
a um pedido da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para revisar a aplicação da Lei
de Anistia dizendo que não cabia ao Judiciário revisar o "acordo
político" que resultou na adoção dessa lei.
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